quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Regresso e férias


No dia 4 de Agosto de 2009 terminou a digressão a Inglaterra. A manhã foi livre, para uns ultimos passeios, e o coro regressou a Lisboa a meio da tarde, com um misto de satisfação pela obra realizada e de nostalgia, como quem acorda de um sonho.
Ao contrário das outras digressões, esta decorreu bastante tarde no calendário, pelo que não houve oportunidade de fazer mais nenhum encontro em Lisboa. Foi chegar e dispersar. As férias do coro começaram ali mesmo na Portela.
As férias eram fundamentais para o descanso do coro, não só da sua actividade mas como grupo, para retemperar forças. Assim, o regresso era sempre feito com vontade de recomeçar e de estar uns com os outros.
Pela minha parte, mal conseguia desligar, pois passava sempre as férias do coro à procura de reportório, a vascular ideias e a esboçar projectos, para que a rentrée tivesse a dose certa de novidade e de interesse, mas também me fazia bem esta pausa com a rotina.
E assim, para manter a tradição, este blogue vai fazer férias até Setembro.
A todos os que possam estar desse lado desejo umas boas férias!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Southwark Cathedral


A segunda-feira dia 3 de Agosto de 2009 foi um dia tranquilo. Aproveitei a manhã livre e fiz um passeio nas margens do Tamisa, para ir avistando e apontando o meu pensamento para a Southwark Cathedral, localizada na margem sul do Tamisa junto à Tower Bridge, onde à tarde cantávamos na Choral Evensong.
Foi para lá que partimos pelas 14h30. As saídas do Heythrop College em busca do nosso autocarro para mais uma actuação já tinham entrado na rotina. Mas esta era a última.
Após novo percurso pela cidade, lá chegámos à catedral, com antecedência qb para o ensaio, marcado para as 15h30.
Repetiu-se um pouco o esquema de S. Paulo, com o reconhecimento do terreno: sala de ensaio, ensaio das procissões, ensaio na igreja, apresentações etc. Só a escala era completamente diferente, desde o tamanho da sala de ensaio ao próprio espaço celebrativo, bastante mais amigável face ao cansaço que já se ia sentindo.
A catedral é um espaço muito inspirador. Lembrava-me de um dia ter a ter procurado para um concerto de órgão, e ter ficado impressionado com a sua localização, cercada de prédios e uma estação de comboios, qual espaço oásis na cidade dissociada. Foi aqui que Tomás Beckett rezou antes de partir para Cantuária a poucos dias do seu martírio em 1170. Hoje as capelas do deambulatório estão apetrechadas de folhetos com orações bastante adequadas ao nosso tempo, pelas pessoas com HIV, pelos migrantes, pelos idosos em solidão.
O padre que presidiu à celebração cantava num coro de câmara e conhecia os melhores polifonistas portugueses! Como o mundo é pequeno… ou, como conhecem mais os outros o melhor da nossa cultura!
Também a arte de bem receber foi uma nota a destacar nesta igreja, uma vez que, por sermos portugueses, tiveram a ideia de convidar um padre brasileiro para se associar à celebração, assegurando algumas partes em português (uma leitura e parte das preçes), o que nos caiu muito bem.
A celebração correu bem e a prestação do coro também. Quando saímos da igreja ainda havia bastante sol. Sentámo-nos numa esplanada à espera da hora do autocarro, com o sentimento gratificante de missão cumprida.
A maioria do grupo regressou ao colégio. Outros iniciaram logo ali a sua última incursão pela cidade. O grupo em que me encontrava foi despedir-se de Notting Hill.




segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Na estrada

O dia 2 de Agosto de 2009 foi um dia intenso. Saímos de Londres pela manhã, a caminho de Oxford onde tinhamos agendado um concerto à hora do almoço na capela do Queen’s College. Tinhamos à nossa espera o Prof. Owen Rees que nos recebeu com todo o empenho. Depois de conhecidos os locais para mudas de roupa, fizémos o nosso ensaio de colocação na capela e o organista que nos acompanhou de Lisboa testou as possibiliddes do órgão. Seguiu-se um breve tempo para enganar a fome e os preparativos finais para o concerto.







Contrariamente ao que esperava, a igreja encheu-se por completo, embora não soubesse na altura a qualidade dessa audiência, pois só depois do concerto é que Owen Rees me falou dos convites que tinha feito, no meio musical da cidade, e que as pessoas não só tinham vindo como tinham gostado bastante: « Many thanks once again for your lovely concert at Queen's. As I mentioned, I received many favourable comments from the audience. Owen Rees, Director of Music, Queen's College, Oxford». E juntava uma mensagem: «We very much enjoyed it; congratulations to the Coro. The schedule looks quite formidable. Leofranc Holford-Strevens, Editor-Consultor, Oxford University Press, Oxford».

O programa procurava ilustrar música portuguesa dos períodos renascentista e barroco, com uma modesta incursão à música do Séc. XX, com Carrapatoso em coro a cappella e duas magníficas peças de órgão de Luis de Freitas Branco.
À saída havia, de facto, um ambiente muito reconfortante e foi-me apresentada uma senhora que escrevia crítica musical e me deu conta do seu apreço pelo concerto. Mais tarde li a sua crítica: «The choir’s luxuriant sound, unmarred by vibrato, rang into the building’s structure. This was surely a celebration of the human voice.
The choir has a large repertoire, has performed widely and has made recordings. Pinto’s work is profound and detailed, his singers showing a deep understanding of both the musical- and verbal text. Their performance was superb.» Para ver a crítica completa, http://pamelahickmansblog.blogspot.com/2009/08/portuguese-sacred-music-performed-at.html.
Mas o tempo era escasso. Esperava-nos um segundo concerto no sul, quase ao pé de Brighton. Rápidas despedidas e aí estávamos de novo na estrada. Eram quase 5 horas quando chegámos a Arundel, uma localidade pacata com o seu castelo e a sua catedral neogótica. Aí nos esperava o Renaissance Choir, que tinhamos acolhido nos Jerónimos um ano antes.
Em sequência rápida, tivémos novo ensaio de colocação, com as malas espalhadas pela igreja onde calhava, teste a um novo órgão, ensaio das duas peças conjuntas com o outro coro, ida para o local onde trocámos de roupa, e regresso à catedral, para actuar, em cortejo pela rua fora.
A abrir o concerto, a Presidente da Câmara deu-nos as boas vindas. Repetimos o programa do concerto de Oxford mas com uns cortes, pois o coro que nos recebia também cantou algumas peças. Recordo com particular interesse o momento da reentrada do coro após o intervalo, ao som da peça de Freitas Branco. No fim, e à semelhança do que tinha acontecido em Belém, os coros cantaram em conjunto duas peças, uma dirigida por mim e outra por Peter Gambie.
A seguir o Renaissance ofereceu-nos uma óptima ceia, onde pudémos conviver e recuperar calorias, para além das habituais trocas de presentes e peça de agradecimento.







O regresso fez-se noite dentro, cansados mas felizes. À medida que se aproximava o fim da digressão o ambiente ia ficando mais descontraído, e permitimo-nos vir a cantar no autocarro aquelas coisas leves com mímica e tudo.
Faltava uma celebração, na tarde do dia seguinte, que já não traria particular novidade.
A sintonia e a coesão do grupo não podiam estar melhor.

domingo, 1 de agosto de 2010

Westminster


Se a primeira actuação em Londres constituiu uma experiência altamente desafiante, pelas características da Catedral de S. Paulo, sua importância cultural e cultual na cidade e pelo facto de ser a 1ª vez que cantávamos numa Evensong, a segunda actuação (a 1 de Agosto de 2009), desta vez na Catedral de Westminster, não o foi menos, pelo que esta igreja significa no panorama da música sacra, para o mundo católico minimamente informado.
Diria que esta catedral católica tem, em Londres, o nível musical-litúrgico que nenhum Papa conseguiu ter na sua igreja mãe de Roma nos ultimos quarenta anos. Nível e sobretudo concordância com o que a Igreja recomenda em matéria de música litúrgica. Quem conheça a Constituição sobre a Sagrada Liturgia e a Instrução Musicam Sacram, saídas do Concílio Vaticano II, encontra, de facto, nesta catedral londrina, o exemplo mais perfeito da sua concretização, com a prática diária do canto gregoriano e da polifonia clássica, a par de novas composições encomendadas regularmente, num contexto onde se promove esse tesouro inestimável que é a Música Sacra, peça fundamental e integrante do cume para o qual se encaminha a acção da Igreja e fonte de onde provem toda a sua força que é a Liturgia.
A avaliar pelo que vemos à nossa volta, seriamos tentados a pensar que estas recomendações resultaram em pura ficção, mas, de facto, há pelo menos um local no mundo (há muitos outros…) em que elas não são letra morta no relativismo que afecta também a Igreja.
A Catedral de Westminster está localizada em Victoria Street, e é a maior Igreja Católica Romana na Inglaterra e no País de Gales. A construção iniciou-se em 1895, e a catedral foi inaugurada em 1903, mas, por razões económicas, a decoração interior ficou incompleta e tem sido continuada ao longo dos anos. A arquitectura neo-bizantina da igreja torna a catedral num lugar único, com uma nave que é a mais ampla das igrejas inglesas e uma elevação da zona do altar que permite uma visão ininterrupta do altar principal com o seu baldaquino, e a concentração de luz sobre esse local é perfeita.


A missa era às 18h pelo que a preparação para um momento tão especial começou com uma manha sem programa, para pequenas voltas e descanso ao desejo de cada um. Às 14h30 saímos do Heythrop College à procura do nosso autocarro, que nos levou até à catedral.
Fomos confiados a um dos organistas da catedral que nos conduziu à biblioteca onde fizémos o nosso ensaio, deu-nos as folhas de cânticos da assembleia (porque o hino de entrada, o santo e o hino de comunhão eram canto da assembleia), conduziu-nos ao lugar onde o coro canta para um breve ensaio de colocação e treinou connosco os cortejos de entrada e saída.
O coro cantou uma missa renascentista, de Pellegrini, o motete Exultate Iusti de L. Viadanna ao ofertório, o motete Sicut cervus de Palestrina na comunhão e, depois da comunhão, a peça Sangue de Cristo de Manuel Faria, fazendo assim um compromisso entre o estilo da catedral e este apontamento português, numa prestação confiante e segura.
Para mim foi um momento de grande emoção, estar naquele lugar onde, presencialmente ou através de discos, acompanhei tão intensamente a música da catedral, que tem um ‘som’ próprio, indissociável do próprio edifício e da sua vida, mas desta vez do lado de lá, procurando com os meus próprios meios e com os que comigo trabalhavam, levar o som também por nós criado ao local que mais me inspirou. Não queria, verdadeiramente, acreditar que estava ali, ao leme…
A intervenção d coro foi muito apreciada e este organista, Charles Cole, ficou particularmente impressionado com a peça portuguesa e a forma como foi interpretada. Escusado será dizer que a sua prestação foi extraordinária, exuberante a solo mas humilde e atenta na relação com o coro, que apoiou com a máxima disponibilidade. Uns dias depois escrevia-me dizendo: Thank you so much for the wonderful singing at Mass - the choir sounded truly wonderful! E há poucos dias, passando por Lisboa, desejava-me a melhor sorte com o meu maravilhoso coro…
Depois da missa regressámos ao colégio para retemperar forças. O dia seguinte prometia, em quilometros e em concertos.









PS: Uma vez mais, não foram tiradas fotos durante a celebração. Com o entusiasmo, acabámos por ensaiar sem vestes, perdendo a oportunidade de uma foto mais solene num lugar tão especial.

sábado, 31 de julho de 2010

São Paulo


A primeira actuação do coro em Londres era um desafio gigantesco, pela importância da Catedral de S. Paulo e, literalmente, pela escala monumental daquela igreja, cercada pela City mas bem visível do Tamisa e suas margens.
A manhã foi ocupada com passeios em pequenos grupos e reunimo-nos a seguir ao almoço para fazer o trajecto de autocarro até S. Paulo. O acesso dos autocarros até à zona do colégio nunca foi muito fácil. Estacionavam pelas ruas próximas e depois era um jogo de adivinhação, com tanta gente à procura do autocarro.
Quando chegámos à catedral, os nossos acompanhantes foram dar um passeio pois faltava muito tempo e não tinham acesso à zona restrita onde iríamos circular e trabalhar.
A catedral tem um piso inferior, uma cripta, em toda a sua extensão, com lojas, bar-restaurante, casas de banho, uma capela para grupos mais reduzidos e a sala de ensaio. Como os coros ingleses cantam em cadeirais, num conjunto de assentos e estantes de madeira, mais ou menos ornamentada e iluminada, as suas salas de ensaio antecipam essa logística, reproduzindo em U pelo menos as estantes, geralmente em pinho. Os assentos estão quase sempre ausentes, até porque as estantes não são ajustáveis. São feitas para se cantar de pé e o espaço nestas salas, em edifícios históricos, nem sempre abunda.
Atravessámos a zona das lojas e apresentámo-nos no local indicado, com todos os elementos devidamente identificados. Entramos para essa sala, que tinha a dita configuração de estantes de pinho em U, encaixadas num piano de quarto de cauda. A sala tinha as paredes repletas de caixas de partituras, um pequeno órgão de tubos e casas de banho ‘privativas’.
Alguém nos veio saudar e dar as boas vindas em nome da catedral. Fizémos a nossa preparação vocal e passamos uma frase ou outra. De seguida vestimo-nos e esperamos a indicação para subir para a catedral para o ensaio de colocação.
A entrada no cadeiral fez-se directamente por uma porta lateral. O coro tomou os seus lugares (em cada actuação havia um mapa detalhado com o lugar de cada um) e foi-me apresentado o organista.
Um dos desafios era cantar com o coro em duas metades acompanhado por um órgão gigantesco que tem a consola (e o organista) num plano mais elevado (corresponde a um 1º andar) e os tubos bastante mais acima. Em geral, as pessoas só identificam o órgão com as duas caixas de madeira trabalhadas e tubos dourados, mas, quando se visita a cúpula, podem ver-se tubos espalhados pelas galerias superiores, em especial os enormes 32 pés.
Mas o ensaio com o jovem organista foi, como esperava, tranquilizador. Um profissional que, do seu posto, e seguindo-me através de uma câmara de filmar, pôs aquela gigantesca máquina no nosso andamento, rigorosamente no meu tempo, só através do gesto, e ficou disponível para qualquer alteração que eu entendesse necessária. Não se perdeu em considerações ou sugestões. Fez o que dele se esperaria – acompanhar bem.
Depois veio o celebrante que tomou o seu lugar para ensaiar connosco os diálogos. Ao contrário das respostas ao canto do presidente na liturgia católica, aos diálogos nestas evensong responde-se a vozes. São frases curtas, mas incisivas. O encadeamento destas frases suscita um canto com atitude. Foi nesse sentido que nos esforçámos na nossa preparação e este pequeno ensaio agradou aos nossos anfitriões, que nos perguntaram há quanto tempo cantávamos em evensong. Na verdade era a primeira vez.
Treinámos o cortejo de entrada e saída da igreja e voltámos a descer à cave para uma pausa na sala de ensaio na cave. À hora definida, subimos e formámos cortejo numa parte lateral de onde saímos com os outros ministros em direcção ao cadeiral.
Nestas celebrações há os tais diálogos, pelo menos um salmo, leituras e, intercalado nestas, o canto dos dois cânticos evangélicos que os católicos utilizam respectivamente em Vésperas e Completas, o Magnificat e o Nunc Dimittis. Cantámos uma das imponentes versões de Stanford. Era o momento alto do ponto de vista musical e litúrgico, e o momento mais característico deste tipo de celebrações em concreto. Já perto do fim da celebração, é costume cantar um anthem, i.e., um motete em vernáculo, não necessariamente em inglês. Tinha visto várias vezes cantar em alemão ou francês nestes momentos e por isso não hesitei em propor uma peça portuguesa. Cantámos Sangue de Cristo, de Manuel Faria, que é uma peça notável e impressiva, simultaneamente com a base popular e de século XX que convinha, e o resultado foi muito bom.
Fim de celebração. Cumprimentos do celebrante que elogiou muito o coro, dizendo que estava perfeitamente dentro do espírito destas liturgias e tinha tido uma performance muito boa. As portas estavam abertas para quando quiséssemos voltar. Poucos dias depois da nossa chegada a Lisboa, recebemos esta nota de Fr. Jason Randell, responsável pela organização da vida litúrgica da Catedral:
The quality of the singing was exceptionally high and our worship was much enriched by your contribution. We appreciate all the time and effort which you and the Choir must have put into the visit and wishes to thank you for helping us maintain a constant round of musical services while the Cathedral Choir have been on holiday.
We much enjoyed having you with us and hope that you and the rest of the choir enjoyed the experience of singing in St Paul’s. As I mentioned, should you be ever back on tour this way again we’d very much like to welcome you back to sing Evensong for us.

Regresso ao colégio, noite livre, sessão de fotos, descanso.














PS: Todas as fotos na igreja foram tiradas no ensaio. Nenhuma foi tirada durante a celebração.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Londres

Dia 30 de Julho de 2009 o coro partiu para a sua digressão a Inglaterra. Não sabia nessa altura que seria a sua última digressão, mas tinha consciência de que esta etapa correspondia a um certo patamar, que dizia do seu percurso, da sua história e das suas capacidades. A simples partida, com dois concertos e três celebrações na agenda, já era, apesar de toda a adrenalina pré-eventos, uma conquista.
O programa incluía efectivamente três celebrações em Londres – uma Evensong na Catedral de S. Paulo, outra na Catedral de Southwark, ambas anglicanas, e uma Missa na Catedral de Westminster, católica. Fora de Londres, o programa incluía dois concertos, ambos no mesmo dia, um dos quais em Oxford e outro no sul, em Arundel, correspondendo às nossas ligações, respectivamente, ao Prof. Owen Rees e ao Renaissance Choir.
No conjunto era um programa altamente diversificado, que nos exigia um certo à vontade em contextos muito diferentes e apresentação de reportório adequado a cada um deles.
Nos concertos privilegiámos naturalmente a música de autores portugueses, como embaixadores que sempre deveremos ser da nossa cultura quando estamos fora de portas. Já nas celebrações foi necessário recorrer a uma missa e a motetes renascentistas para a Catedral de Westminster, na linha da sua prática dominante na liturgia quotidiana, e a salmos, Magnificat, Nunc Dimitis e diálogos próprios das liturgias da palavra que constituem as Evensong anglicanas.
Mas este primeiro dia foi dedicado apenas à deslocação e à acomodação do coro. Partimos ao fim da manhã da Portela para Heathrow, onde estava a nossa espera um autocarro com uma guia, uma figura sui generis que resolveu pelo caminho contradizer as indicações que eu dei ao grupo em matéria de precauções contra a gripe. Sempre fiz questão, no mais simples concerto que implicasse uma deslocação de autocarro a outra localidade, que as pessoas não fossem num registo de excursão recreativa, desbaratando a sua energia e a sua voz a falar alto, etc. Perante a responsabilidade de cantar nestes locais numa cidade como Londres não podia deixar de ser exigente até ao fim da ultima actuação, e a descontracção com que esta senhora dizia ao microfone que a gripe só preocupava os portugueses conseguiu-me irritar, mas os seus cabelos brancos tiraram-me a hipótese de a contradizer.
Ficámos alojados num colégio, na zona de Kensington, a uns minutos de Notting Hill e este primeiro dia foi para ‘avaliar o terreno’. Uma boa meia hora para o autocarro tentar aceder ao pátio do colégio, por entre vielas estreitas e postes, para não carregar com as malas de mais longe. Distribuição de quartos, senhas de refeição, e a propriamente dita numa cantina modesta mas simpática. O perímetro do colégio incluía a nossa residência, em altura, com vistas (e ouvidos) para a linha de metro ao ar livre e, dos andares mais altos para a digna envolvente à zona, um campo de jogos, um pequeno jardim, uma biblioteca, um convento, e a cantina no prédio principal, com a sua fachada civilizada, que incluía uma bela capela neogótica, dando para a calma de Kensington square. Há meses, quando lá voltei, percebi que esta capela, católica, tem celebrações para surdos-mudos, o que é um indicador de uma pastoral digna desse nome...
A noite foi tranquila, para a maioria, com uns passeios a pé pelas redondezas, até ao Royal Albert Hall. No dia seguinte a 1ª actuação era só à tarde, pelo que havia oportunidade para turismo ou descanso durante a manhã.
A reportagem fotográfica ficou a cargo de Vanda Abreu, que ao serão nos brindava com uma mini-sessão no seu portátil com as fotos do dia. São dela as fotos deste e dos posts seguintes.








quinta-feira, 29 de julho de 2010

Na véspera da digressão


No dia 29 de Julho de 2009 o coro teve o seu último ensaio antes da Digressão a Inglaterra, e, como em todos os últimos ensaios antes das saídas, foi altura de verificar que nada faltava: os célebres caderninhos com o programa ao detalhe feitos pelo Miguel (capa na imagem), com indicações de reportório, horas de estar, sair, chegar, mudar de roupa, mapas, indicações turísticas etc; as capas, as partituras, os cds para vender, os programas para distribuir, as roupas para as celebrações, as roupas para os concertos, as oferta para os anfitriões, etc.
Para trás ficavam meses de preparação, na reserva dos lugares e eventos, avião, autocarros, alojamento, refeições dos coralistas, acompanhantes...
Devo referir que os locais onde cantámos, sobretudo nas celebrações, nos forneceram com meses de antecedência guiões exaustivos sobre as celebrações e o tempo de preparação, com indicações tão precisas como a que porta estar, quem nos recebe, onde nos encaminha, quantos minutos tem o ensaio e em que sala decorre, quantos minutos temos para ir à igreja fazer o ensaio de colocação, a que horas virá o celebrante ensaiar com o coro os diálogos que temos de cantar com ele, quando e onde vestir, ensaios das procissões de entrada e saída pelo mestre de cerimónias. Recebemos também atempadamente as folhas que são distribuídas à assembleia, com os textos e traduções do que o coro canta, as músicas do que a assembleia deve cantar etc.
Enfim, uma sociedade evoluída e organizada.
E esse era o ponto: cantar em Inglaterra é, parece-me, o maior desafio que um coro não inglês, e, em especial, um coro de um país latino (periférico...) pode enfrentar. Isto porque em Inglaterra há diariamente boa música em todo o lado, nas igrejas, nas salas de concerto, por toda a parte. E o panorama das igrejas é, de facto, um panorama de alto nível, onde a música não é um elemento decorativo que tanto se pode ter como não ter, ou ter de má qualidade. A música está no centro da acção celebrativa, e o caso mais paradigmático é o das evensong, onde o coro canta frente a frente, num cadeiral, rodeado de assembleia, também disposta frente a frente. Canta salmos intimistas ou de revolta com a assembleia atenta ali a um passo, a qual transporta para as ambiências bíblicas onde havia, como no nosso tempo, guerra e paz, confiança e desespero.
Então e a assembleia, fica só a ver e a ouvir? Fica sobretudo a participar ouvindo, mas se for o caso (num domingo ou dia de festa) lá tem o seu hino que no fim todos cantam como cá não se canta o hino nacional, porque cantar lhes é natural e não uma habilidade para alguns amestrados. Cantar é natural, como é natural que alguns dediquem ao canto a sua vida profissional e nas igrejas se ofereça o que de melhor se pode fazer, os coros as grandes peças, a assembleia os seus corais, com não menor convicção.
Isto fez com que, para além de toda a preparação musical, que não foi pouca, e que implicou um substancial reforço do coro para cantar em espaços tão grandes e nesta logística específica, tivéssemos ensaiado a pensar nestes contextos em concreto. Já há muito tempo que o coro ensaiava dividido em dois semi-coros, mas nem sempre havia equilíbrio para ter 2xSATB. Agora, porém, e nos ensaios com reforços, cantávamos em duas metades de 4 vozes cada, a uma distância razoável, tentando recordar a que distância estariam os bancos do cadeiral da gigantesca catedral de S. Paulo, medidos a passos, a partir das imagens da internet e da memória. Este último ensaio foi, por estas razões, na própria igreja dos Jerónimos, e não na sala habitual de ensaio, pois assim poderiamos aproximar-nos da escala, da complexidade acústica e da logística de S. Paulo.
Foram fornecidas também aos coralistas cópias de boas gravações das peças que se iriam cantar, sobretudo das mais ligadas ao contexto específico da liturgia anglicana, para estudo individual. Por incrível que pareça, o que deu mais trabalho a ensaiar foi um salmo simplicíssimo a 4 vozes que se tinha de cantar na cadência do texto, tal como cantamos os salmos em latim ou vernáculo nas vésperas. É que não basta saber ler inglês, é preciso mesmo entrar na forma e no estilo.
Não sei se chegou a chocar alguém que um coro católico cantasse numa liturgia anglicana. Mas lá há hoje em dia uma excelente relação e colaboração entre as igrejas e também entre os coros. Nalguns dias do ano o coro da Catedral de Westminster vai cantar à Catedral de S. Paulo e vice-versa, numa troca não só de lugares mas de rituais e sua música própria.
E no dia a seguir lá fomos de armas e bagagens, cheios de frascos de álcool com medo da gripe A. Preocupação quase ridícula a um ano de distância, mas estávamos no ponto do alarmismo, com os noticiários a contar diariamente o número de infectados, que atingia no Reino Unido o maior recorde.